Nem tudo que reluz é ouro.

 

 

Em 02/jan./2018, escrevi um artigo publicado na ES Brasil intitulado “O novo sempre vem”. Na minha dissertação naquela oportunidade, abordava com olhar otimista a chegada do capital financeiro no setor de saúde, através dos denominados fundos de private equity. Passados dois anos desta importante mudança no setor e, apesar de reconhecer que ainda falta uma curva de aprendizado na saúde para os fundos que aportaram no segmento, vejo com muita preocupação e reserva este movimento inicial. Como nos inspira o filósofo e psicólogo francês Michel Foucault (1926-1984), “As pessoas sabem aquilo que elas fazem; frequentemente sabem por que fazem o que fazem; mas o que ignoram é o efeito produzido por aquilo que fazem.” Não à toa, Foucault, filho de família tradicional de médicos classe média-alta, dedicou grande parte da sua obra a estudar a loucura e a criticar os métodos tradicionais de tratamento dessa enfermidade humana.

 

Sempre acreditei que o sucesso na prestação de serviços de saúde está apoiado em dois pilares fundamentais: qualidade assistencial e equilíbrio econômico-financeiro. Na minha visão, um deles não se sustenta sem o outro e quando esta equação não é respeitada, a população sofre em demasia. No Espírito Santo, como exemplo, este processo ainda não demonstrou privilegiar o primeiro pilar. A entrada no setor, em alguns casos, ampliou os problemas relacionados à superlotação e falta de profissionais qualificados. Demitiu-se gestores competentes indiscriminadamente, desrespeitou-se a soberania de profissionais de saúde na condução dos tratamentos dos doentes, alterou-se a padronização de materiais e medicamentos dos denominados éticos para genéricos mais baratos (Há relatos da introdução de medicamentos com eficácia questionável na opinião de profissionais médicos respeitáveis). Na linguagem de profissionais ligados às ciências gerenciais, houve uma destruição maciça de valor!

 

Tendo sido um dos grandes incentivadores deste movimento no segmento hospitalar, me preocupa sobremaneira como este setor, com este novo desenho, se preparou para enfrentar a pandemia da Covid-19. Num cenário onde a vida não está colocada em primeiro lugar, o resultado sob o ponto de vista humanitário poderá ser catastrófico. Há muitas razões para preocupação, mas a torcida é para que a própria pandemia ajude a reverter este quadro e que a  frustração inicial seja substituída pela esperança de ver o setor de saúde brasileiro caminhar para patamares civilizados. Gente para avacalhar, o segmento já tinha de sobra.

 

O fato é que os órgãos reguladores precisam se atentar para a importância de se vigiar os hospitais consolidados, de forma a se evitar que haja apenas a ampliação do seu poder de barganha, aumentos de preços e deterioração na qualidade da prestação de serviços de saúde. Penso importante estarmos vigilantes, para que a ganância dos homens não coloque a perder a possibilidade de se fazer o bem ao semelhante e ainda assim criar riquezas. O filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), em sua clássica obra “O Leviatã”, alega serem os humanos egoístas por natureza. Com essa natureza, tenderiam a guerrear entre si, todos contra todos. Assim, para não serem exterminados uns pelos outros, seria necessário um contrato social que estabelecesse a paz, a qual levaria os homens a abdicarem da guerra contra outros homens. Mas, egoístas que são, necessitam de um soberano (Leviatã) que puna aqueles que não obedecem ao contrato social. Homem egoísta produz capital selvagem. Selvageria produz guerras e pandemias. Para que fosse evitada uma nova guerra, penso que Deus permitiu se levantar um Leviatã chamado de novo Corona vírus.

 

 Benoni Antonio Santos, economista especializado em administração em serviços de saúde e sócio fundador da MBa Consulting. Experiência de mais de 22 anos em gestão em saúde.

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